sábado, 26 de setembro de 2009

NA CONQUISTA DE SILVES

A Silves árabe fora a cidade mais rica e mais culta do Algarve. O seu porto — pois o mar quase chegava aos muros — era movimentado. Em 1189, um cruzado declarou-a dez vezes mais rica que Lisboa.
A Crónica da Conquista do Algarve conta também como ela foi tomada por Paio Peres Correia.
No castelo foram descobertas umas ossadas que os arqueólogos afirmam ser de um homem morto na tomada da cidade.
Por esta guisa que haveis ouvido, aprouve a Deus de dar a vila de Tavira em poder dos Cristãos; e depois que a deixou o mestre segura de todo o que lhe cumpria, foi a Selir e tomou-o por força e então foi cercar Paderne, que é um castelo forte e mui bom, de grão comarca, em redor de Albufeira e a serra; e estando sobre ele, mandou gente ao termo de Silves que fossem tomar a torre de Estômbar, que dantes fora sua. E foram lá e houveram-na outra vez, e quando Alamafom, seu Rei deles, que estava em Silves, soube como aquelas companhas ali eram, saiu a eles do lugar com a mais companha que pôde, porque lhe disseram que estava ali o mestre com todo o seu poder; e o mestre, como soube que era fora, alçou-se logo de sobre Paderne e veio-se lançar sobre Silves. Alamafom, indo para a torre de Estômbar, achou novas que não era ali o mestre e que não estava ali mais gente que aquela que tomara a torre e a defendiam; porém, quis lá chegar e logo mui à pressa se tornou para a vila e logo se temeu do que era, e o mestre lançou-lhe uma cilada que lhe tinha já tomado as portas e as gentes repartidas por elas. E El-Rei Alamafom, quando isto viu, querendo entrar por força por a porta que chamam de Zóia, porque era lugar desembargado, encontrou-se ali com o mestre, que tinha a guarda dela; e el-Rei mouro vinha com todos os seus juntos e ali se viu o mestre com grande trabalho com eles e foi a peleja em um campo fora, junto com a vila, onde ora está uma igreja que se chama Santa Maria dos Mártires, e os mouros fizeram muito por cobrar a porta e se meteram sobre a torre de Zóia, porque é bem saída e marcos para fora. Mas isto não lhe prestou nada, porque os Cristãos andavam em volta com eles e assim entraram com eles pela porta da vila; e ali foi a peleja tão grande em guisa que mais Cristãos morreram ali que em outro lugar que se no Algarve tomasse. E El-Rei mouro andou pela vila em redor e quisera-se acolher pelo postigo da traição a um alcácer em que ele morava e achou o postigo embargado. Foi para se acolher por outra porta da vila e achou-a cerrada e então, de desesperação, deu de esporas ao cavalo e fugiu e passando por um pego afogou-se ali. E o acharão depois morto e agora chamam àquele lugar o Pego de Alamafom.
Dos mouros que ficaram ao alcácer e o trabalharam de o defender quanto podiam e o mestre não o quis combater que segurou-os que viessem à vila se quisessem e aproveitassem suas herdades e lhe conhecessem aquele senhorio que conheciam ao Rei mouro, e assim fez aos outros lugares que tomou e não combatiam os alcáceres em que se os mouros recolhiam mas segurava-os a que vivessem nas terras por serem aquelas aproveitadas e depois ali edificada uma igreja catedral e foi feita a cidade.
Então se tornou o mestre a Paderne, que antes tivera cercada, e tomou a vila e o castelo por força e não se pleitearam com eles matando os mouros por dois cavaleiros freires que aí mataram. Esta vila de Paderne se mudou naquele lugar que agora chamam Albufeira, porém ainda a outra está murada e corrigida com seu castelo e uma cisterna mui boa dentro.
Almeida Garrett aproveitou este episódio para a sua D. Branca, onde entra Alamafom.Imagem ao cimo, Silves com o seu castelo; segunda imagem, placa da Rua D. Paio Peres Correia em Silves; terceira, a tomada de Paderne, ilustração do romance The Lord of Paderne de Pedro Oliveira Pinto (a quem a agradecemos).

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